Estudo afirma que nem cinco Amazônias compensariam as emissões das petroleiras

Segundo pesquisa, só as reservas das 200 maiores petroleiras já liberariam 673 Gt de CO₂, quase o dobro do limite para manter o aquecimento global.
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Voz da Terra
10 outubro 2025
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Produção de petróleo no Brasil. (Foto: Petrobras).

REDAÇÃOPesquisadores costumam dizer que, quando um estudo é publicado na Nature, ele ganha mais do que credibilidade — ganha poder de influenciar decisões no mundo todo. 

É o caso da pesquisa recém-divulgada pela revista, que parte de uma pergunta direta e incômoda: é possível compensar, de forma realista, a poluição de carbono se as petroleiras continuarem queimando o que já têm em reservas?

O raciocínio é simples. Para seguir explorando combustíveis fósseis e manter a aparência de equilíbrio, as empresas apostam em três frentes: reflorestamento, captura de carbono (CCS) e compra de créditos de carbono. O problema, segundo o estudo, é que nenhuma dessas alternativas é viável em larga escala para neutralizar os impactos da queima de petróleo, gás e carvão.

Os autores explicam que as 200 maiores petroleiras do mundo concentram um potencial de 673 gigatoneladas de CO₂ equivalente. Esse número não representa emissões já liberadas, mas o carbono que ainda está no subsolo, estocado nas reservas fósseis que essas empresas planejam explorar. Ou seja, trata-se de um “estoque de carbono” que aparece nos balanços financeiros como ativo econômico, embora represente um passivo ambiental gigantesco.

A pesquisa também questiona a lógica financeira da compensação. Em simulações com diferentes preços do carbono, os cientistas descobriram que, a partir de US$ 150 por tonelada de CO₂, todas as empresas analisadas passariam a ter valor ambiental líquido negativo. Isso significa que, social e economicamente, deixariam de ser sustentáveis. 

Quando o custo social do carbono é considerado — cerca de US$ 190 por tonelada —, o negócio de combustíveis fósseis se torna insustentável, gerando mais prejuízo climático e econômico do que benefícios. A conclusão é clara: é mais barato e racional evitar novas emissões do que tentar compensá-las no futuro.

Mesmo que o planeta inteiro fosse reorganizado para reflorestar, o cálculo não fecharia. O carbono armazenado nas árvores é temporário e pode voltar à atmosfera em incêndios, secas ou doenças. Para neutralizar as emissões das reservas das grandes petroleiras, seria necessário reflorestar uma área equivalente à América do Norte e Central. Essa hipótese implicaria deslocar comunidades, substituir terras agrícolas e alterar ecossistemas inteiros — algo logisticamente impossível e socialmente desastroso.

O oceano, por outro lado, aparece como um dos principais aliados no enfrentamento da crise climática. Ele atua como um “pulmão azul”, absorvendo cerca de um terço do CO₂ emitido e armazenando carbono em manguezais, pradarias marinhas e sedimentos oceânicos. No entanto, essa capacidade natural está ameaçada pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas, que pode causar vazamentos, poluição e destruição de habitats responsáveis por capturar e estocar carbono.

Recentemente, foram leiloados mais de 16 mil km² na Foz do Amazonas para exploração de petróleo — uma área equivalente a 13 milhões de piscinas olímpicas entregue à indústria fóssil. Além disso, o Ibama aprovou o resultado do simulado da Petrobras, considerado o último passo antes da decisão sobre a licença de perfuração em águas profundas no litoral do Amapá.

Para Mariana Andrade, porta-voz do Greenpeace Brasil, a pesquisa confirma o que movimentos ambientais vêm alertando há anos: “Não existe compensação capaz de equilibrar os impactos da expansão do petróleo. A Amazônia e o oceano estão conectados por uma rede viva de povos e biodiversidade fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas. O Brasil pode e deve liderar pelo exemplo, barrando novas fronteiras como a Foz do Amazonas e acelerando uma transição justa que proteja pessoas e natureza.”


Os números reforçam a dimensão do problema. Queimar as reservas das 200 maiores petroleiras liberaria 673 gigatoneladas de CO₂e, quase o dobro do limite global para conter o aquecimento a 1,5 °C. Para compensar apenas com reflorestamento, seria necessário plantar em 24,7 milhões de km², o equivalente a três Brasis ou cinco Amazônias inteiras. Mesmo essa alternativa, a mais barata, custaria US$ 11 trilhões, sem considerar a disputa por terras produtivas e territórios ocupados. Já a captura direta de ar, opção tecnológica ainda em desenvolvimento, tem custo médio de US$ 1.000 por tonelada, inviável em escala global.

O estudo vai além dos cálculos globais e se conecta a decisões imediatas do Brasil, como o destino da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Mais de 50 redes e organizações da sociedade civil lançaram a carta aberta “Transição Energética Justa e Popular”, cobrando que o país chegue à COP 30, que acontece neste ano em Belém (PA), com propostas coerentes e participativas.

O documento pede que os planos de transição energética sejam construídos com participação social, transparência e respeito aos territórios, e que incluam metas reais de redução de emissões e substituição dos combustíveis fósseis. A mensagem central é direta: não há liderança climática sem coerência entre discurso e prática.

Seguir abrindo novas fronteiras de petróleo significa ignorar a ciência, ampliar riscos sociais e ambientais e enfraquecer o papel do Brasil em espaços internacionais como a COP 30.


 
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