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| As secas consecutivas de 2023 e 2024 na Amazônia, trouxeram falta de pesca, remédios e água de qualidade. (Foto: © Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil) |
REDAÇÃO - Um novo relatório divulgado poucas semanas antes da COP 30 — a primeira Conferência do Clima a ser realizada na Pan-Amazônia — alerta que a região está enfrentando um rápido aumento das temperaturas extremas e do estresse hídrico.
Segundo o estudo, 10% da bacia amazônica já registra elevações de pelo menos 0,77 °C por década, totalizando mais de 3,31 °C desde 1981. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Lancaster, em parceria com mais de 50 pesquisadores internacionais e apoio da WWF-UK.
O relatório apresenta uma análise detalhada e atualizada das mudanças climáticas na Amazônia ao longo de mais de quatro décadas, com dados de alta resolução cobrindo todo o bioma.
Os resultados indicam que os extremos climáticos têm se intensificado de forma acelerada nos últimos 43 anos, fenômeno que não é evidente quando se observa apenas a média das temperaturas, que cresce a uma taxa de 0,21 °C por década, dentro do ritmo do aquecimento global médio.
Os pesquisadores alertam que, se o avanço dessas condições extremas continuar, a Amazônia poderá ultrapassar limites críticos de resiliência. O estudo dividiu o bioma em células de 11 quilômetros e utilizou dados de satélites e estações meteorológicas locais para identificar as estações secas em cada área. A partir daí, os cientistas modelaram as variações de temperatura e déficit hídrico entre 1981 e 2023, medindo tanto os períodos secos quanto os ciclos anuais completos.
A taxa de mudança climática foi avaliada por dois métodos. O primeiro observou a tendência central, que mede a variação média de temperatura e umidade ao longo do tempo.
O segundo analisou a tendência extrema, focada nos anos mais quentes e secos — períodos em que os danos ambientais e sociais costumam ser mais severos. “Estamos mais interessados no período quente e seco, pois é quando os danos causados pelas altas temperaturas podem ser maiores”, explicou o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster e autor principal do estudo. “Embora isso já tenha sido analisado na Amazônia Meridional, nunca havia sido feito em todo o bioma, que inclui áreas ao norte do Equador com dinâmicas climáticas opostas às do sul.”
A pesquisa confirma que a Amazônia Sul, onde há maior desmatamento e conversão de terras, continua sendo a região mais aquecida quando observadas as temperaturas médias. No entanto, o centro-norte da Amazônia é hoje a área que apresenta crescimento mais acelerado nos extremos climáticos — as secas mais longas e os picos de calor mais intensos.
“As taxas de mudança nos extremos são muito mais altas do que nas médias, e as regiões mais afetadas também diferem entre si”, afirmou a pesquisadora Nathália Carvalho, do Lancaster Environment Centre. “Isso mostra que o clima da Amazônia não está mudando de forma uniforme, e essa informação é essencial para planejar políticas eficazes de adaptação.”
Segundo Barlow, os eventos climáticos extremos representam uma preocupação crescente, pois contribuem para incêndios florestais, baixas recordes nos rios, poluição do ar e temperaturas insuportáveis para populações humanas, animais e vegetação.
“As taxas de mudança que estamos vendo nas regiões mais afetadas são alarmantes”, afirmou. Ele ressalta ainda que as áreas com crescimento mais rápido dos extremos de calor estão longe do Arco do Desmatamento, o que indica que as transformações não se devem apenas às mudanças locais, mas principalmente às mudanças climáticas globais provocadas por emissões mundiais.
Para Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil, os impactos sobre povos e comunidades tradicionais são particularmente graves. “Nas regiões central e norte da Amazônia, manter a floresta em pé já não é suficiente para evitar a exposição aos extremos climáticos. As secas de 2023 e 2024 trouxeram escassez de peixes, remédios e, pasmem, água potável”, afirmou.
Os efeitos já são perceptíveis em diferentes formas de vida. O relatório menciona a primeira morte em massa de mamíferos registrada na Amazônia — com preguiças e outros animais encontrados mortos no chão ou pendurados em árvores —, além da redução no tamanho das populações de aves e mudanças em seu comportamento e expectativa de vida. O calor extremo e a seca também têm impulsionado incêndios florestais e picos de poluição do ar em cidades como Manaus, enquanto o ressecamento dos rios afeta a saúde e a mobilidade das comunidades ribeirinhas.
A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, destaca o impacto social dessas transformações. “Os eventos extremos estão comprometendo a subsistência de comunidades locais, como no caso do açaí, e enfraquecendo o papel das florestas como rede de segurança alimentar. Isso ameaça políticas públicas em andamento, que buscam restaurar ecossistemas e fortalecer economias sustentáveis. É preciso agir globalmente em nome da justiça climática”, disse.
O professor Jos Barlow reforça que medidas urgentes de adaptação são necessárias para enfrentar os efeitos dessas mudanças, como prevenir o desmatamento, ampliar o combate a incêndios e apoiar populações afetadas pela seca dos rios.
Para o Dr. Mike Barrett, diretor científico da WWF-UK, o avanço das temperaturas extremas exposto no relatório reforça a necessidade de decisões firmes na COP 30. “O aumento rápido dos eventos climáticos extremos mostra a urgência de medidas globais contra a crise climática. Também é fundamental apoiar políticas que garantam o fim do desmatamento”, concluiu.

