Redação Voz da Terra - Moradores da Comunidade Marielle Franco, no sul do Amazonas, afirmam viver sob ameaça constante desde a última terça-feira (5).
Segundo eles, seguranças de uma empresa privada invadiram a antiga Fazenda Palotina, em Boca do Acre, área já arrecadada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para implementação de políticas sociais agrária, montaram guarita de madeira, acampamento e passaram a vigiar a ocupação com drones.
“A Empresa Bastos está fazendo um serviço ilegal, fiscalizando uma área que não é particular... Eles ficam armados na guarita, e essa é a estratégia desde o começo: vão chegando aos poucos”, denunciou um trabalhador.
As mulheres relatam medo e constrangimento diante da vigilância aérea e dos disparos. “A gente não pode mais tomar um banho... Essa noite, eles deram não sei quantos tiros na beira do lago, pertinho da minha casa... ficamos com medo de tirar a roupa ou tentar ir no banheiro”, disse uma moradora.
As famílias querem que as autoridades retomem o processo de regularização fundiária. “Não queremos confusão... a gente quer só que o Incra resolva esse problema”, afirma outro integrante.
A comunidade ocupa cerca de 20 mil dos 50 mil hectares da área e, há anos, enfrenta investidas de fazendeiros com maior poder econômico e político. A disputa pelo território, acessado pelo Ramal do Garrafa (BR-317 – km 93), se mantém intensa.
Segundo dados nacionais da Comissão Pastoral da Terra, o Brasil registrou mais de 2,1 mil conflitos no campo em 2024, o segundo maior número desde 1985. A Amazônia Legal concentrou mais da metade dos casos, envolvendo milhões de hectares e milhares de famílias.
No Amazonas, a CPT contabilizou dezenas de ocorrências, incluindo ameaças de morte, destruição de roças e despejos forçados, com Boca do Acre e Lábrea entre os municípios mais afetados. Os acusados não foram localizados pela reportagem.
Violência
O Brasil registrou 2.185 conflitos no campo em 2024, o segundo maior número desde 1985. As ameaças de morte subiram de 219 para 272 e as tentativas de assassinato, de 72 para 103, enquanto os assassinatos caíram para 13.
A Amazônia Legal concentrou 1.180 conflitos, sendo 998 por terra. Houve aumento de 13% nos casos, com mais ameaças de expulsão, incêndios criminosos, contaminação por agrotóxicos e desmatamento ilegal.
No Amazonas, foram 132 conflitos no campo, atingindo 24.518 famílias. Houve 250 expulsões, 289 casas destruídas e invasões que afetaram 10.600 famílias, impactando mais de 105 mil pessoas — 41% a mais que em 2023.

